27/10/2014
Atualizada: 27/10/2014 00:00:00
Na tarde da última quinta-feira (23), no auditório da Apeoesp no centro de São Paulo (SP), ocorreu a Plenária sobre a Crise da Água em SP, com a participação de entidades, sindicatos e movimentos sociais – entre eles, a CSP-Conlutas. A plenária debateu a falta de água no estado e deliberou iniciativas coletivas para lutar contra a crise hídrica.
A mesa da atividade foi composta por Helena Silvestre, do Movimento Luta Popular, Claudionor Brandão, da Universidade de São Paulo (USP), Camila Lisboa, do Sindicato dos Metroviários, e Marzeni Pereira, da Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp). Os debatedores trataram de sugerir ações concretas para combater esta tragédia anunciada, sem perder de vista a responsabilização do governador Geraldo Alckmin pela crítica situação hídrica vivida.
A participação de Marzeni, da Sabesp, teve importância por trazer à tona dados que alertam sobre os diversos campos a serem prejudicados com a falta de água. E as intervenções realizadas após a discussão também levantaram a necessidade de unidade entre os trabalhadores, que poderão ser alvos do desemprego, consequente da falta de abastecimento, e dos movimentos sociais que lutam contra a criminalização, uma vez que é muito provável a repressão aos atos de protesto contra a falta de água.
Para Brandão, é necessário organizar uma linha de frente única para as mobilizações, e cita a revolta já relatada em outras cidades do estado de São Paulo. “Fatalmente vai acontecer aqui na capital também, na medida em que a situação se agravar, e é preciso que haja uma direção organizada, para o movimento ganhar corpo, e que este tema vire pauta das causas populares”.
As privatizações da estatal Sabesp foram colocadas em pauta por Camila Lisboa, que citou também a urgência de denúncia do governo por improbidade administrativa. “Já existe uma situação de racionamento. Isso nos traz indignação, mas precisamos transformar este sentimento em mobilização. O caso de Itu [interior de São Paulo] é muito categórico e tudo isso poderia ter sido evitado, mas o compromisso com a privatização e o período eleitoral foi maior”, frisou.
Além das cidades interioranas, o caos do desabastecimento também já afeta a periferia da capital paulista. Helena relata que há dias não há água na Ocupação Esperança, em Osasco, e que muitos bairros nos arredores também não recebem água. “Precisamos incorporar melhor este tema com a perspectiva da luta direta em nossas pautas habituais. E é necessário encarar o problema mais de fundo, para além de responsabilizar o governador, pensar a reforma agrária e sobre como o agronegócio afeta o sistema de águas no país”, adiciona a companheira, que citou também receber diversos relatos casos de diarreia e intoxicação na ocupação e na região.
Marzeni, da Sabesp, revelou que a estatal já fecha os reservatórios no período entre 17h e 5 horas da manhã. “Se não fizesse isso, já teria acabado a água. Só falta o governo assumir, pois está mais do que óbvio para todos que já está faltando água”. Ela continua. “Já existe uma situação de rodízio acontecendo. O Sistema Cantareira secou e está em -15%. O nível de operação já passou disso. Quando no final de novembro passarem a distribuir a segunda cota do volume morto, a situação de Piracicaba e Campinas deve piorar, pois o abastecimento será prejudicado. O Sistema Alto do Tietê tem 8% hoje, que deve durar por cerca de 40 dias. Se não chover até janeiro, o risco não é o de faltar água, é de acabar água mesmo, e não ter água para ninguém. Não será mais possível fazer rodízio”.
Desde janeiro, a crise já estava constatada, e com as pressões da população e dos movimentos organizados, denúncias que comprovam a improbidade administrativa do governado Alckmin não param de surgir, inclusive com relatos públicos da presidente da estatal que confirmam a propaganda enganosa da situação sob controle. Segundo Marzeni, se houvesse planos de rodízio e racionamento desde o início, a situação de hoje seria muito diferente, e que o há por vir será ainda pior. “Tenho certeza de que, após o segundo turno, o governador, que já não precisará mais ajudar o Aécio, tomará medidas impopulares para conter a crise”, concluiu.
Como encaminhamento da plenária, foi sugerido fortalecer o evento já convocado pelo movimento estudantil, para dia 1º de novembro, às 15h, no vão do Masp. Além deste primeiro ato, as reuniões devem acontecer com regularidade para firmar a agenda de mobilizações, a fim de convidar outras entidades para somar forças e confrontar a crise atual da falta de água.
Foi apontado também que o movimento unificado traga mais informações para a sociedade e estabeleça um programa de reivindicações a serem apresentadas ao governo, além de colocar peso em campanhas contra as previsíveis demissões nas empresas que sofrerão com a falta de água e a linha de produção.
*Com edição de Andes-SN.