20/03/2015
Atualizada: 20/03/2015 00:00:00
Um estudo apontou o fracasso das metas do Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e, ao mesmo tempo, a ampliação da precarização do trabalho docente por conta do programa. Apresentado como dissertação de mestrado, o levantamento utilizou dados oficiais, documentos e entrevistas com docentes para avaliar os objetivos e repercussões do Reuni na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Instalado em 2007, uma das metas do Reuni é elevar a taxa média de conclusão dos cursos de graduação presenciais para 90%. O estudo traz dados compilados até o ano de 2012 para acompanhar o desenvolvimento dessas metas na UFSM e, mais especificamente, com entrevistas de docentes do Centro de Educação Física e Desportos (CEFD).
Segundo a pesquisa, no ano de 2012, apenas 60% do número de alunos ingressantes na UFSM em 2007 haviam sido diplomados nos cursos presenciais de graduação, sendo que o único ano dentre os analisados em que a meta de 90% de diplomação foi alcançada foi em 2011, com 91%.
Outros dados que chamam a atenção são o aumento do número de matrículas no quinquênio analisado, 41%, em relação ao aumento do número de vagas para graduação, que ficou na casa dos 53% - uma vacância de mais de 10%. Já na pós-graduação houve um acréscimo no número de vagas na ordem de 88%. Enquanto isso, o número de docentes na UFSM aumentou apenas 17% entre os anos de 2007 e 2012. Já o número de técnico-administrativos em educação aumentou em 3,6% no período.
Os dados levantados pela pesquisa apontam que, se a meta do Reuni está longe de ser alcançada, os efeitos desse tipo de expansão ficam muito claros, no momento em que são constatadas a precarização da atividade docente e a perda de qualidade no tripé de ensino, pesquisa e extensão. Nas entrevistas realizadas com professores do CEFD, a grande maioria reclama das condições de trabalho, da infraestrutura e da carga horária desgastante.
25% dos professores entrevistados atribuem à necessidade de participar de projetos de pesquisa e/ou de atuarem em cargos administrativos como um dos principais motivos para o nível de estresse na sua atividade. Além disso, 21% ainda dedicam-se ao programa de mestrado e 17% ao curso de dança, 62% dizem ter uma jornada dupla de trabalho e 67% já tiveram problemas de saúde em decorrência da carga de trabalho. Outro dado preocupante é o de que a remuneração docente sofreu um decréscimo de 50% no período pesquisado.
O cenário é ainda mais preocupante quando analisamos a situação da UFSM após a instalação do Reuni. Com obras inacabadas, equipamentos e infraestrutura sem manutenção e cortes nos orçamentos das Instituições Federais de Ensino (IFE). Em muitos casos, sobra também para os professores a tarefa de atrair investimentos para a universidade: em 2012, os professores do CEFD, através de editais e programas, foram responsáveis por 42% das verbas destinadas para a aquisição de materiais e para o investimento em infraestrutura do centro.
Para o presidente da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (Sedufsm – Seção Sindical do Andes-SN), Adriano Figueiró, o panorama apresentado na dissertação não é novidade: “Os dados confirmaram em termos numéricos aquilo que a gente já vinha denunciando de forma qualitativa há muito tempo”. Segundo o professor, “a conclusão que a gente chega é que passados oito anos do início do Reuni, nós estamos muito maiores e muito piores. E esta é a receita muito antiga do capital internacional, do Banco Mundial, de expandir o ensino e desqualificá-lo ao mesmo tempo, formando uma mão-de-obra de baixa qualidade e que portanto entra no mercado de trabalho sem poder de organização, de barganha”. “Os dados revelam uma situação de um nível superior que se expande e se expande cada vez mais com uma baixa qualidade e a tarefa de compensar esta baixa qualidade recai sobre o docente. E isso para nós é muito doloroso”, conclui Figueiró.
Com edição do Andes-SN e imagem de UFSM.