27/05/2015
Atualizada: 27/05/2015 00:00:00
As Instituições Federais de Ensino (IFE) passam por um momento complicado. Após um processo de expansão que não veio acompanhado do necessário investimento em infraestrutura, nem do aumento no repasse orçamentário e da contratação de docentes e servidores técnico-administrativos, agora as IFE enfrentam grave crise financeira, que se evidencia no corte de bolsas, de verbas de custeio, na falta de pagamento dos trabalhadores terceirizados e – em alguns casos – na impossibilidade total de funcionamento regular.
Não obstante os já exemplares problemas vividos pela educação federal nos últimos anos, o governo federal cortou, na última semana, R$9,4 bilhões do orçamento da educação. Não à toa os docentes federais e os técnico-administrativos em educação começam greves nacionais na próxima quinta-feira (28). Os terceirizados também estão mobilizados, e realizaram manifestações em todo o país nesse semestre, assim como os estudantes, que vêm em crescente mobilização, inclusive ocupando reitorias.
Um dos exemplos da precarização das IFE é a substituição de salas de aula e laboratórios por contêineres. As “salas de lata” já existem em universidades como a Federal de São Paulo (Unifesp), a Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e as Federais Fluminense (UFF) e do Rio de Janeiro (UFRJ). Ainda na maior universidade federal do país, a UFRJ, os problemas orçamentários levaram as próprias direções locais a suspenderem os calendários letivos na Faculdade de Direito, na Escola de Comunicação Social e no Colégio de Aplicação, entre outras unidades.
O corte do orçamento da educação levou a outras situações extremas: na Unifesp e na Federal de Santa Catarina, água e luz estão sendo racionadas. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a instituição deve mais de R$10 milhões para a empresa terceirizada que realiza os serviços de limpeza e segurança, que ameaça demitir os trabalhadores caso não receba em breve. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), dois prédios estão interditados e três bibliotecas fechadas devido à crise financeira na universidade.
Na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), o contingenciamento no repasse de recursos levou servidores a fazerem vaquinha para comprar materiais como papel sulfite, papel higiênico, café e açúcar. Em instituições como a UFF, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Universidade Federal da Bahia (Ufba) , Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e a Universidade Federal de Goiás (UFG) os trabalhadores terceirizados já realizaram diversas manifestações e paralisações contra o não pagamento de salários e benefícios e, recentemente, na UFCG deflagraram greve.
Na UFF, na UFRJ, na UFJF, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e no Colégio Pedro II, que faz parte da rede federal, houve ocupação de reitoria por parte dos estudantes. Em comum entre as mobilizações estudantis, a crítica aos cortes de orçamento e as reivindicações de assistência estudantil e de pagamento dos terceirizados.
Giovanni Frizzo, 1º vice-presidente da Regional Rio Grande do Sul e um dos coordenadores do Setor das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes) do Andes-SN, critica os cortes no orçamento da educação e contextualiza a mobilização da categoria docente nas IFE. “Desde o início do ano de 2015, a educação pública como um todo vem enfrentando problemas decorrentes do contingenciamento no início do ano e dos cortes do orçamento de mais de 9 bilhões de reais apenas para a educação. Isso tem trazido uma enorme insatisfação para a categoria docente e também uma enorme dificuldade do desenvolvimento de atividades acadêmicas, tendo em vista que esses cortes, em diversas universidades, inviabilizam o funcionamento de alguns setores. Não há técnico-administrativos em número suficiente, há uma intensificação do trabalho docente por conta da não realização de concursos públicos”, afirma o docente.
O diretor do Andes-SN continua. “Para além dessa questão também há um enorme problema estrutural por conta da expansão completamente desordenada originada pelo Programa de Expansão e Reestruturação das Universidades Federais (Reuni). Há ampliação do número de estudantes e de cursos e, ao mesmo tempo, há obras inacabadas, obras que não foram feitas e contratações que não foram feitas, o que acaba gerando uma situação catastrófica nas nossas instituições”, ressalta Frizzo.
“A precarização das condições de trabalho, que implica também em problemas de estrutura e realização das atividades de ensino, pesquisa e extensão, é uma das razões para que essa mobilização tenha se fortalecido a ponto da categoria decidir pela realização da greve docente a partir do dia 28 de maio”, conclui um dos coordenadores do Setor das Ifes do Andes-SN.