28/10/2016
Atualizada: 28/10/2016 00:00:00
Alvacy Lopes do Nascimento é professor mestre aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), no qual integrava o Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente (Igdema). Membro da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Alagoas (Adufal) e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas apresentou, em sessão do Café & Prosa, aspectos de sua pesquisa, que tem como tema: “O pecado na visão da ciência contemporânea”.
Em entrevista, professor Alvacy falou sobre o Café & Prosa e a importância do tema de sua exposição, ressaltando as implicações na vida humana, do que tradicionalmente se chama pecado e, particularmente, da noção de pecado relacionada à ciência.
Em sua opinião, qual a importância do ‘Café & Prosa’ para a comunidade acadêmica?
O estímulo que é dado não somente aos aposentados para que participem de atividades culturais e prazerosas, explorando suas potencialidades. Esse trabalho, desenvolvido com muito amor, deve ser valorizado.
O que significa para um pesquisador, receber o convite para apresentar seu trabalho nesse espaço?
Alegria e expectativa. Fiquei muito feliz porque a palestra foi bem aceita. Houve participação significativa do auditório. Para mim, foi gratificante, as pessoas entenderam e vivenciarem a mensagem, identificando-se com ela.
Enquanto professor, o senhor atuava no Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente. Qual a relação existente entre sua área de atuação profissional e o tema dessa pesquisa?
A Geografia é uma ciência voltada ao estudo da produção do espaço geográfico, que é a ocupação histórica dos territórios pelos povos e grupos humanos, o que, em grande parte, se manifesta nas paisagens. Na atualidade, é do âmbito dessa ciência a análise da percepção que as pessoas têm do espaço no qual interferem, transformando-o, ou produzindo outro espaço (geografia da percepção e do comportamento). É bastante comum, nessa atuação espacial, a exploração de pessoas e recursos ambientais sob influência do que seriam pecados capitais (ou mortais), cujas raízes ideológicas vêm da antiguidade clássica: soberba; avareza; ira; inveja, gula, preguiça; e luxúria (sexo). Tais pecados foram fortemente condenados pela tradição cristã através da Igreja Católica. Posteriormente, pelas demais igrejas cristãs, pautando o comportamento das pessoas.
Qual o conceito de pecado na visão da ciência contemporânea?
As análises desse tema baseadas na Biologia Evolutiva, na Psicologia Evolutiva e na Neurociência mostram a influência fundamental dos sete pecados capitaisna evolução humana. Há formas de sentimentos e comportamentos que foram imprescindíveis à sobrevivência dos seres humanos. A soberba, por exemplo, é vista como um recurso utilizado por nossos ancestrais, protegendo seus espaços. Se não houvesse o orgulho daquele momento, talvez não tivéssemos sobrevivido. Nessa perspectiva, a raiva também é vista como recurso evolutivo importante no enfrentamento dos inimigos, disputando territórios e os demais recursos naturais. Hoje, se sabe que o obeso guloso não dispõe da leptina, o hormônio da saciedade, avisando-lhe o momento de parar de comer. Ele deve se valer de outros recursos para disciplinar esse comportamento. Como condená-lo pelo pecado da gula? Nossos ancestrais, adaptando-se a drásticas mudanças climáticas (glaciamento e secas)desenvolveram características genéticas que nos levam, hoje, a acumular gordura, mesmo em períodos de abundância de alimentos. A preguiça, em determinados casos, pode ser um dos sintomas de depressão. Por esses parâmetros, a ciência nos lembra que a natureza humana existe. A formação da personalidade recebe sua influência, além daquelas provenientes das injunções sociais.
Com essa polarização entre o que seria a virtude e pecado, pode-se dizer que, nesse aspecto, a religião contribuiu de forma distorcida no desenvolvimento histórico da sociedade?
Sim, já que essa construção moral se reproduz mesmo para aqueles que não são religiosos, através dos preconceitos, tabus e pressões diversas. Em determinados períodos da história, se as pessoas não se enquadrassem nos padrões e ensinamentos vigentes, poderiam até ser condenadas à morte, o que ocorreu com o frade dominicano Giordano Bruno, queimado vivo na Itália, no século XVII. No mesmo século, Galileu, também condenado pela Igreja, quase não escapa da morte.
A ciência pode contribuir para superarmos os conceitos de pecado?
Pesquisas no campo da Neurociência mostram que os chamados pecados vêm de áreas primitivas do cérebro. As áreas mais desenvolvidas para frear os impulsos daí provenientes são relativamente novas. Funções superiores, como ponderação, planejamento e decisão,estão ligadas ao lobo frontal, que elabora o pensamentoe integra uma parte nova do cérebro: o córtex. O conhecimento desses fatos pode nos tornar mais tolerantes e menos arrogantes. Carregamos culpas pelo que somos ou pelo que passamos. A ciência pode ajudar o indivíduo a se libertar de amarras psíquicas, e as sociedades humanas a serem mais equilibradas. Os cientistas identificam no cérebro as áreas que correspondem ao comportamento e aos sentimentos, o que tem sido feito até em cérebro de gorilas, registrando áreas aonde se processam sentimentos primitivos, como a inveja e a soberba. Mostramos, em nossas palestras, através de slides, vários pontos do cérebro humano sob tais perspectivas. Enfatizamos, conforme nos diz a ciência, as influências dos hormônios e dos neurotransmissores, como a serotonina e a dopamina, no comportamento humano.
Que danos psíquicos os preconceitos podem causar à personalidade?
A pessoa se torna neurótica, medrosa, insegura, tentando reprimir sua própria natureza, sua própria identidade. A sexualidade tem sido o grande alvo dos tabus e proibições seculares, mesmo com as mudanças em andamento no mundo ocidental. A religião, se construir uma postura tolerante e sem ideias fundamentalistas, pode contribuir para o equilíbrio social, particularmente em nosso país.