19/06/2026
Atualizada: 19/06/2026 14:43:49
A morte do renomado pensador Edgard Morin (1921-2026) - aos 104 anos de idade (na verdade, quase aos 105, pois completaria em breve nova idade aos 8 de julho de 2026) - deixou triste um número imenso de admiradores, colaboradores e amigos. Ele era festejado tanto pela excelência de sua abrangente obra quanto pela delicadeza de sua presença amplamente reconhecida por aqueles e aquelas que desfrutaram de sua convivência. Não tive o privilégio de tê-lo conhecido pessoalmente, mas as leituras de alguns de seus escritos e o depoimento de colegas que gozaram da sorte de terem convivido com o mestre me ajudaram a entender o que sentiram.
Ha poucos dias, foi realizada uma reunião, no formato de videoconferência, coordenada pelas Professoras Izabel Petraglia e Maria Cândida Moraes, como uma homenagem póstuma ao amigo que partiu; quem a assistiu pôde ver os emocionados depoimentos de colegas do Brasil, do Uruguai, da Bolívia, da Argentina e da Espanha, sobre o homem e a obra.
Morin era conhecido, talvez precipuamente, pela sua epistemologia da complexidade, mas não apenas por ela. O estudo da complexidade requer reflexão e imersão intelectual. Uma metáfora, que pode ajudar na percepção imediata de seu significado e que ao mesmo tempo pode ser considerada como uma imagem icônica da própria complexidade, seria a do bordado no qual as linhas que o tecem se entrelaçam e, deste modo, o mais importante a ser enfocado se refere ao conjunto de relações e correlações que emergem desse entrelaçamento e não apenas e meramente o foco dos objetos separadamente considerados, esses últimos, que embora sejam importantes para a compreensão limitada de alguns aspectos da realidade, são, sem dúvida, insuficientes para uma compreensão minimamente abrangente do real, enquanto considerado na sua integridade. Aliás, foi esta a imagem que a nossa colega do Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas, a Profa. Maria Dolores Fortes Alves, lançou mão por ocasião de sua fala durante a supracitada reunião coordenada pelas Professoras Izabel e Maria Cândida quando se referiu a essa tecitura complexa como uma imensa colcha de retalhos.
A Profa. Dolores organiza, com uma dada periodicidade aqui em Maceió, um grande congresso, que na verdade constitui uma confluência de três congressos sobre temas correlacionados, ocasião essa na qual os seus participantes se debruçam com entusiasmo sobre temas relacionados à Educação, às Ciências, ao Ambiente, às Doenças do Trabalho, à Epistemologia, entre outros. Tive a honra de participar em maio de 2024, por ocasião da realização do III Congresso Internacional sobre Práticas de Aprendizagem Integradoras e Inovadoras (III CIPAII), de uma mesa redonda sobre as Cegueiras do Conhecimento juntamente com os colegas professores João Henrique Suanno da Universidade Estadual de Goiás e Walter Matias Lima de nossa UFAL. A mesa foi coordenada pela então doutoranda, e orientanda da Profa. Dolores, a Profa. Raquel de Lima Santos da Faculdade de Medicina da UFAL em Arapiraca, que pouco tempo após defenderia a sua brilhante tese de doutorado junto ao PPGE/UFAL com o título Educação Médica e o uso das metodologias ativas: possibilitando práticas criativas e inclusivas. Como notícia alvissareira, a Profa. Dolores prepara para o vindouro setembro de 2026, a ser realizado aqui em Maceió, mais um grande congresso, creio que na mesma confluência de temas da versão do congresso anterior de 2024.
Gostaria agora de tecer algumas considerações sobre uma excelente instância para o exercício do pensamento complexo que é a Rede Nordeste de Ensino (RENOEN) da qual a nossa UFAL constitui um dos polos. A implantação da RENOEN contou com o trabalho pioneiro de nosso colega o Prof. Elton Casado Fireman durante a epidemia da covid-19 no segundo semestre de 2021. Tenho participado de bancas de algumas defesas de tese junto à RENOEN/UFAL cujos teores constituem verdadeiros empreendimentos intelectuais que procuram novas e genuínas potencialidades para a melhoria do Ensino de Ciências. Mais frequentemente, essas potencialidades são trabalhadas em vista de objetivos que visam um currículo mais focado na tradição eurocêntrica, mas há abertura para a confluência e a complementaridade no sentido em que essas potencialidades sejam imbuídas de um espírito mais abrangente e assim, sejam concebidas à luz de epistemologias outras que conversam, ou podem conversar, com epistemologias da complexidade de lavra eurocêntrica como a de Morin e a de Gaston Bachelard (1884-1962), aliás um autor muito admirado por Morin.
Tais epistemologias eurocêntricas são confrontadas em uma espécie de confluência construtiva com epistemologias, também complexas, como as de lavra indígena, as de lavra quilombola e aquelas amplamente concebidas pela denominação de epistemologias do Sul Global, aliás, esta última uma notação de teor mais geopolítico e contrastando com o conceito de Ocidente, nada neutro e, de igual forma, muito mais geopolítico que simplesmente geográfico.
Para finalizar o presente artigo, gostaria de fazer menção à tese da doutoranda Danielle Barbosa Bezerra, professora de Biologia do IFAL e orientanda de nosso colega, o Prof. Ivanderson Pereira da Silva. Em sua tese, a ser defendida junto à RENOEN/UFAL, Danielle argumenta que um Ensino de Ciências mais consequente e que seria bem mais qualificado seria aquele que admitisse a confluência de saberes o que, em suma, se constituiria em uma confluência construtiva de epistemologias; sua tese se debruça na defesa dos saberes quilombolas e critica severamente a atitude racista e preconceituosa de não os considerar, o que certamente acarretaria um empobrecimento humano, cultural, ético e epistemológico de grande monta. Danielle inclusive usa o verbo aquilombar para expressar a necessidade de sua contundente crítica à omissão, seja ela disfarçada ou mesmo dolosa e explicita, constituída pela ocultação de saberes, o que pode ser traduzido pelo neologismo epistemicídio ou, no sentido lato do termo, assassinato de saberes. Danielle defende a sua tese no próximo dia 11 de junho de 2026 às 14h no auditório do CEDU/UFAL e promete, enquanto professora, desenvolver a sua Etnobiologia com seus alunos do IFAL.
Enfim, concluo aqui este breve artigo para asseverar uma mensagem que considero de bastante relevância: o Ensino de Ciências constitui atividade complexa e deve ser considerada como tal.
Autor do artigo: Jenner Barretto Bastos Filho - Professor Emérito da Ufal (Instituto de Física - IF)
Jenner Barretto Bastos Filho é Professor Emérito da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e sócio da Adufal. O docente é graduado em Física pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Física pela Escola Politécnica Federal de Zurich, na Suíça. Tem experiência nas áreas de Física Geral, Fundamentos da Física Quântica, Ensino de Física, História e Filosofia da Ciência, Educação Ambiental e Teorias do Desenvolvimento. Aposentado pelo Instituto de Física (IF) da Ufal, o docente continua na universidade como professor voluntário.
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