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23/10/2026
Atualizada: 23/10/2026 10:26:46

Card: Aleck Lima/Ascom Adufal

Neste momento tão especial lembrei de alguns autores que li há alguns anos e vez por outra volto a revê-los. Cito especificamente Hannah Arendt, quando fala sobre pensar e julgar, liberdade e responsabilidade.

Gostaria de colocar em comum reflexões, sínteses do que tenho visto, ouvido e vivido, relevar ideias que julgo muito importantes, pelo que minha percepção, portanto minha subjetividade, me motiva a me reinventar.

Esta escolha me ajuda a compreender o perigo de abandonar o julgamento pessoal e aceitar passivamente as narrativas de um grupo ou de uma autoridade.

A capacidade de pensar exige examinar o que fazemos e considerar o mundo também a partir da perspectiva dos outros. Não permitiria que a obediência, a conveniência ou a lealdade coletiva substituam nossa responsabilidade de julgar.

A liberdade não consiste apenas em poder dizer o que pensamos. Ela também depende da capacidade de pensar por nós mesmos, confrontar nossas certezas com os fatos e reconhecer quando estamos equivocados.

E a justiça exige que não abandonemos essa responsabilidade, nem que transformemos o julgamento dos outros em uma forma de punição ou vingança.

Compreender como alguém foi levado ao fanatismo não significa retirar toda a sua responsabilidade; significa compreender as condições em que essa responsabilidade se formou.

Como conciliar a compreensão humana de quem foi fanatizado com a responsabilidade de cada pessoa pela defesa da verdade, da justiça e da liberdade?

Estamos numa sociedade profundamente polarizada na qual as pessoas desconfiam umas das outras, a informação é frequentemente interpretada de acordo com a identidade política, os medos e os interesses de cada grupo.

Uma afirmação pode ser rejeitada não porque seja falsa, mas porque vem de alguém considerado adversário.

Da mesma forma, uma mentira pode ser aceita porque confirma aquilo em que alguém já deseja acreditar.

Muitas vezes o difícil é estabelecer o diálogo em que poderíamos compartilhar estas questões, substituindo o julgamento da pessoa, sem dizer: "você acredita nisso porque é ignorante” por: "qual fonte levou você a essa conclusão? Podemos examinar juntos se ela é confiável?"

Talvez isto nos ajudasse a examinar nosso diálogo à luz de três valores fundamentais: verdade, liberdade e justiça. A Verdade exige que nossas afirmações sejam confrontadas com evidências; A Liberdade exige que as pessoas possam pensar, questionar e discordar sem intimidação; A Justiça exige que os direitos e as responsabilidades sejam reconhecidos sem privilégios ou perseguições motivadas por preferências ideológicas.

Dito isso esclareço, para mim, o quanto posso fazer escolhas que sejam fiéis ao que penso e julgo de forma crítica o suficiente para enxergar as evidências, confrontá-las e fazer a escolha por um Brasil que me represente: que prime pela verdade, pela justiça e pela paz.

Enfim lembro o Salmos 85, reinterpretado: "a paz e a justiça se encontraram, mas foi a justiça que primeiro correu para o abraço."

 

Autora do artigo: Delza Gitaí, reitora honorária da Ufal.


Sobre a autora

Reitora honorária da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Delza Gitaí é médica formada pela Ufal, com mestrado em Ciências Biológicas-Fisiologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professora aposentada da Universidade, mas já ocupou o cargo máximo da Ufal, eleita reitora para o mandato de 1987-1991. Também já ocupou cargos como secretária de Estado no governo de Alagoas e atuou em várias outras frentes como médica e empresária.

 

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